Arquivo da categoria: Baianidades

Praia do Forte

Estar em Praia do Forte requer tempo para saber-se vivo. Esta é a delícia que a vida nos prepara e que a urbanidade de Salvador corrói, sufoca no centro urbano de poeira, fumaça, engarrafamentos e caos estressante. Praia do Forte nos convida a sabermo-nos humanos, seres naturais, que respiram e inspiram… estar na praia a ver a vida e a paisagem de barcos que ondulam para lá e para cá nos dá tempo de expirar as mazelas diárias.

Ontem tive a oportunidade de estar entre amigas a sorver um pouco do que a vida tem de bom. Um dia curto, poucas horas de diversão, suficientes, entretanto, para me dar novo fôlego e fazer respirar a canseira de trabalhar em um centro urbano neurótico.

Depois de umas cervejinhas na praia, um atendimento ruinzinho de dar dó e uma comidinha que nem valeram a pena na segunda barraca, ainda assim, nada disso conseguiu nos irritar ou tirar do clima de relaxamento total bem ao estilo fugere urbem, carpe diem.

 

Sair andando a pé, sentindo a areia a massagear a alma e ver a vida acontecendo tão lentamente só nos conduz à felicidade.

Ainda bem que, apesar de tudo, existe a praia. E, para mim ( e para o poeta), o grande lance será sempre fazer ROMANCE.

___________________

O jantar foi de lamber os beiços lá no Mundo Blu em Praia do Forte. Delicioso.

 Teto de uma das salas do Museu Rodin Bahia:

Não dá para apaixonar?

A riqueza é um ‘detalhe’ que faz bem…

 

Detalhe restaurado da parede de uma das salas do hoje Museu Rodin.

Este vitral abaixo não é fiel ao original. Infelizmente, o casarão estava abandonado e não foi possível recuperar o vitral. Os restauradores o criaram a partir de um desenho que há nas paredes da mesma sala.  

De todos os recintos, este oratório foi o meu preferido… Apaixonei pelo vitral da virgem. M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O!!!

Quer mais? Que tal visitar o Museu?

Museu Rodin Bahia

Detalhes da fachada do recém restaurado Palacete do Comendador Bernardo Martins Catharino ( 1862-1944), espaço que abriga as obras do francês Auguste Rodin:

 

À entrada do Museu, o transeunte já se depara com a beleza da fachada e o belíssimo jardim que abriga quatro obras originais adquiridas pelo Governo da Bahia e pela iniciativa privada. O Museu receberá, em regime de comodato com o Museu Rodin de Paris, 62 obras a partir de março de 2007, as quais serão expostas nos suntuosos salões do palacete.

 

Na foto acima, detalhes da área externa do Museu Rodin Bahia, o jardim e o calçamento xadrez em branco e vermelho de onde se ergue  Jean de Fiènnes nu (Rodin, 1886). Abaixo, a escultura em ângulo frontal:

Na entrada, a escultura  L’ homme qui marche sur colonne (Rodin, 1877):

O  Torse de l’Ombre (Rodin, 1901): 

E, no mesmo jardim à entrada também,  La Martyre (Rodin, 1885):

Em detalhes:

Sobre o Museu, visite aqui informações sobre o baiano@ , veja o site oficial do Museu Rodin Bahia @ ou viaje aqui até o museu em Paris @.

Museu Rodin na Bahia

 

A fim de estreitar os laços históricos que existem entre a  Bahia e a França, no recém restaurado Palacete de Bernardo Martins Catharino, os baianos contarão com a exposição das obras de Rodin que virão de Paris num regime inédito de Comodato ( a França cedeu 62 obras originais). A proposta foi idealizada por Emanuel Araújo, artista plástico baiano e ex-diretor da Pinacoteca de SP, numa parceria firmada com Jacques Vilain, diretor do Museu Rodin Paris.

O Comendador

  

A onda de modernização das metrópoles rouba, muitas vezes, da cena urbana, jóias da arquitetura antiga. O Governo do Estado adquiriu o palacete construído em 1912 antes que ele fosse demolido para dar lugar às construções modernas ou aos prédios de alto luxo que hoje se vêem no antigo e tão nobre ainda bairro da Graça. 

Bernardo Martins Catharino (1862-1944) nasceu em Portugal, no povoado de Santo André de Poiares, próximo a Coimbra. Foi enviado pela família ao Brasil aos 13 anos para trabalhar na empresa de seus patrícios Joaquim José da Costa & Irmão. Tornou-se cedo gerente e casou-se com Úrsula da Costa, filha do patrão, passando a sócio da firma antes mesmo dos 21.

Mudou-se para Salvador, reergueu firmas falidas após tornar-se sócio delas e já acumulava fortuna,  a esta altura, em negócios imobiliários, além de vasta experiência comercial.  Salvou da bancarrota a União Fabril (em Itapagipe) que passou a se chamar Companhia Progresso União Fabril e tornou-se a maior empresa têxtil da Bahia com 5 fábricas e três mil operários. Antes mesmo da era Vargas, Catharino já presenteava seus trabalhadores no mês de aniversário com um salário e construiu escola para os filhos dos operários.

Os místicos e pesquisadores antigos, aficcionados por seitas e mistérios, gostarão de saber que Bernardo Martins Catharino recebeu do imperador o título de COMENDADOR DA ORDEM DA ROSA (segundo a História, por causa de sua ação na Santa Casa de Misericórdia em Feira de Santana).

Ofertou o altar-mor da Catedral  Basílica de Salvador (antigo Colégio dos Jesuítas) e também o da capela da Igreja do Bonfim.

Faleceu em 1944. Na ocasião, foi lembrado seu costume de manter junto à chávena de ouro a tigela de barro trazida de casa e onde comera no navio ao vir para o  Brasil. Explicava aos curiosos: “É para eu não esquecer o que fui”.

Velho Chico

Já voltei de Juazeiro e Petrolina, às margens do Velho Chico. A estrada é longa e o caminho é deserto e seco, literalmente. Vê-se o tom predominantemente cinza na vegetação e come-se mal nas estradas baianas. Um dia quase inteiro para ir e outro para voltar (sem paradas, a viagem dura 6 horas de carro e 8 de ônibus).

A  delícia é ver o rio São Francisco e toda a sua grandiosidade e imponência, bem como rever os amigos. Esta quantidade de água só me fazia pensar num oceano de água doce.

 A diversão é pegar um paquête na beira do rio

 

 e atravessar para a Ilha do Rodeadouro onde há uma prainha bem legal, barracas,

 

e passar o dia curtindo a sombra (sim, porque o sol simplesmente torra os miolos de qualquer humano que se arrisque). Levar protetor é ordem, lei. 

A comilança fica convidativa: as melhores pedidas são a isca de peixe e o caldinho de surubim (com menos leite de coco, peça, senão vai sentir um certo enjôo). A batata frita estava no ponto (agradou a todos), mas a surpresa foi encontrar um bom acarajé fritinho na hora em forma de mini bolinhos, apetitoso tira-gosto para acompanhar a cerveja que precisa estar estupidamente gelada para agüentarmos o sol no Velho Chico. 

A água do rio convida a vários banhos: límpida, cristalina e doce. O frio assusta ao entrarmos pela primeira vez, mas, na verdade, é o contraponto ideal para o sol escaldante. O refresco indispensável da viagem.

 

Na volta, a gente sente o frescor do rio atiçando os mistérios mais profundos. Todos parecem curtir até o último raio de sol, porque a essa hora, os barquinhos voltam lotados.

 

Nas margens do rio, em plena sexta-feira 13, vimos, ouvimos e sentimos a assombração perto de nós. De arrepiar. E não foi lenda, não. 

São Francisco do Conde

Caminhar por São Francisco do Conde  é permitir-se um mergulho no tempo e no espaço. Distante apenas 66 km de Salvador, muitas vezes leva o visitante a pensar estar ainda na Bahia colonial, ao se deparar com os imponentes prédios de herança portuguesa e a Igreja de São Francisco. Muda o ângulo e pronto: temos a Ilha Cajaíba bem em frente ao porto do município de menos de 27000 habitantes. Deste modo, pode-se apreciar ainda um reduto de Mata Atlântica. De barco, outra opção, a região que envolve vários manguezais oferece passeios inesquecíveis pelas ilhas da Baía de Todos os Santos.

No passado, quando houve a segunda guerra contra os índios dos rios Paraguaçu e Jaguaripe, Mem de Sá conduziu as tropas até a região onde fica São Francisco do Conde, e demarcou as terras onde ergueria um engenho seu. O conde que se agregou ao nome do santo advém do Engenho do Conde, assim conhecido por ter sido herdado por dom Fernando de Noronha, terceiro conde de Linhares, genro de Mem de Sá. 

Do alto da cidade,  a gente pode projetar um tempo passado, há cerca de 700 anos, quando por estas paragens, neste pedacinho do recôncavo da Baía de Todos os Santos, os Tupinambás e os Caetés Negros deslizavam em canoas como as que estão agora no cais. Ou talvez imaginar Américo Vespucci, o florentino, navegando em 1 de novembro de 1501 por estas águas e encarregando-se de batizar a vila de São Francisco, a região inteirinha do recôncavo baiano e o golfão descoberto, que nominou como Baía de Todos os Santos, por ser esta a data em que os católicos comemoram os seus santos todos.

Riquíssima em manguezais, a região é excelente também para explorar redutos de Mata Atlântica ainda preservados da devastação que ocorreu nos centros urbanos.

Diversos engenhos e casas de farinha do século XVI ao XIX ainda resistem e convidam ao passeio por um Brasil colônia distante no tempo e no espaço deste país do terceiro milênio. Algumas capelas nas fazendas próximas, pertencentes a famílias ricas como a de Clemente Mariani, guardam a arte barroca e setecentista dos primórdios. No século XVIII, houve um censo que registrou em SFC 325 casas, 14 engenhos e 2724 pessoas.

Uma colcha de retalhos de seda e fustão é hoje o retrato urbano de São Francisco do Conde. Entre a rica arquitetura colonial, podemos ver prédios mais simples, como esta igrejinha de Nossa Senhora,

ou palafitas montadas sobre os oleodutos da Petrobrás e casebres miseráveis por toda a periferia. Embora seja  a cidade da riqueza do açúcar, no tempo passado, e do petróleo, na atualidade, os ecos da escravidão e da desigualdade de renda assombram ainda a população paupérrima de São Francisco do Conde. Mesmo a cidade apresentando a maior renda percapta do país( R$300.000,00 por pessoa) e a prefeitura recebendo royalties mensais de R$10.000.000,00 (dez milhões por mês!) da Petrobrás, a população não desfruta de saneamento básico, poucas ruas são asfaltadas na periferia, o serviço médico é muito precário e a educação sofrível. Há que se pensar na administração …

É comum vermos a população na janela a olhar a vida passar. Carentes, sem muitas perspectivas, parecem todos personagens do poema Cidadezinha Qualquer de Drummond.

 

A Casa da Câmera e Cadeia – até hoje  eu acho graça da ironia da Câmera e da Cadeia estarem juntas – construída no século XVIII, fica na Praça da Independência, a poucos passos do cais. 

O prédio está em bom estado de conservação e mantém a pintura tradicional das construções lusitanas, mas, apesar da importância histórica, não está tombado pelo patrimônio histórico, como quase tudo em SFC.

Aqui e ali, desponta o casario colonial, mas o ponto alto da arquitetura neste  reduto baiano é mesmo a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, construída no século XVI.  Palmeiras imperiais ao passo que anunciam a igreja também a escondem :

 

O barroco vai se revelando aos olhos mais atentos,  já na fachada principal, quando vemos a concha atrás da imagem do Santo Francisco. Se Gioto pintou toda a catedral de Assis e nos deixa embasbacados e boquiabertos, em SFC é a falta de conservação do patrimônio que nos faz sentir arrepios. A Igreja belíssima precisa de reparos urgentes embora sua fachada esteja em bom estado. 

Observe a simetria das formas, o espelhamento: maravilhas da arte .

Não foram poucos os Franciscos desta terra. A Capitania outrora pertenceu a Francisco Pereira Coutinho, o Rusticão,  doada em 05 de abril de 1534 em Évora, Portugal. Na Ponta do Padrão na Barra da Baía – Salvador , o Rusticão fundou a sua vila, conhecida posteriormente como Vila Velha ou Vila do Pereira. Interessante o dado porque nos faz viajar nas nomenclaturas do presente. O Pereira é hoje o nome de um badalado restaurante em Salvador e Vila Velha o nome de um dos mais antigos teatros da capital, importante por ter revelado no show Nós, por exemplo, nomes como Gal Costa, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gilberto Gil e Tom Zé.

Vou voltar a caminhar pelo recôncavo, voltarei a São Francisco do Conde. De lá, trarei mais desta nossa Bahia para a gente.