Arquivo do mês: outubro 2006

Velho Chico

Já voltei de Juazeiro e Petrolina, às margens do Velho Chico. A estrada é longa e o caminho é deserto e seco, literalmente. Vê-se o tom predominantemente cinza na vegetação e come-se mal nas estradas baianas. Um dia quase inteiro para ir e outro para voltar (sem paradas, a viagem dura 6 horas de carro e 8 de ônibus).

A  delícia é ver o rio São Francisco e toda a sua grandiosidade e imponência, bem como rever os amigos. Esta quantidade de água só me fazia pensar num oceano de água doce.

 A diversão é pegar um paquête na beira do rio

 

 e atravessar para a Ilha do Rodeadouro onde há uma prainha bem legal, barracas,

 

e passar o dia curtindo a sombra (sim, porque o sol simplesmente torra os miolos de qualquer humano que se arrisque). Levar protetor é ordem, lei. 

A comilança fica convidativa: as melhores pedidas são a isca de peixe e o caldinho de surubim (com menos leite de coco, peça, senão vai sentir um certo enjôo). A batata frita estava no ponto (agradou a todos), mas a surpresa foi encontrar um bom acarajé fritinho na hora em forma de mini bolinhos, apetitoso tira-gosto para acompanhar a cerveja que precisa estar estupidamente gelada para agüentarmos o sol no Velho Chico. 

A água do rio convida a vários banhos: límpida, cristalina e doce. O frio assusta ao entrarmos pela primeira vez, mas, na verdade, é o contraponto ideal para o sol escaldante. O refresco indispensável da viagem.

 

Na volta, a gente sente o frescor do rio atiçando os mistérios mais profundos. Todos parecem curtir até o último raio de sol, porque a essa hora, os barquinhos voltam lotados.

 

Nas margens do rio, em plena sexta-feira 13, vimos, ouvimos e sentimos a assombração perto de nós. De arrepiar. E não foi lenda, não. 

São Francisco do Conde

Caminhar por São Francisco do Conde  é permitir-se um mergulho no tempo e no espaço. Distante apenas 66 km de Salvador, muitas vezes leva o visitante a pensar estar ainda na Bahia colonial, ao se deparar com os imponentes prédios de herança portuguesa e a Igreja de São Francisco. Muda o ângulo e pronto: temos a Ilha Cajaíba bem em frente ao porto do município de menos de 27000 habitantes. Deste modo, pode-se apreciar ainda um reduto de Mata Atlântica. De barco, outra opção, a região que envolve vários manguezais oferece passeios inesquecíveis pelas ilhas da Baía de Todos os Santos.

No passado, quando houve a segunda guerra contra os índios dos rios Paraguaçu e Jaguaripe, Mem de Sá conduziu as tropas até a região onde fica São Francisco do Conde, e demarcou as terras onde ergueria um engenho seu. O conde que se agregou ao nome do santo advém do Engenho do Conde, assim conhecido por ter sido herdado por dom Fernando de Noronha, terceiro conde de Linhares, genro de Mem de Sá. 

Do alto da cidade,  a gente pode projetar um tempo passado, há cerca de 700 anos, quando por estas paragens, neste pedacinho do recôncavo da Baía de Todos os Santos, os Tupinambás e os Caetés Negros deslizavam em canoas como as que estão agora no cais. Ou talvez imaginar Américo Vespucci, o florentino, navegando em 1 de novembro de 1501 por estas águas e encarregando-se de batizar a vila de São Francisco, a região inteirinha do recôncavo baiano e o golfão descoberto, que nominou como Baía de Todos os Santos, por ser esta a data em que os católicos comemoram os seus santos todos.

Riquíssima em manguezais, a região é excelente também para explorar redutos de Mata Atlântica ainda preservados da devastação que ocorreu nos centros urbanos.

Diversos engenhos e casas de farinha do século XVI ao XIX ainda resistem e convidam ao passeio por um Brasil colônia distante no tempo e no espaço deste país do terceiro milênio. Algumas capelas nas fazendas próximas, pertencentes a famílias ricas como a de Clemente Mariani, guardam a arte barroca e setecentista dos primórdios. No século XVIII, houve um censo que registrou em SFC 325 casas, 14 engenhos e 2724 pessoas.

Uma colcha de retalhos de seda e fustão é hoje o retrato urbano de São Francisco do Conde. Entre a rica arquitetura colonial, podemos ver prédios mais simples, como esta igrejinha de Nossa Senhora,

ou palafitas montadas sobre os oleodutos da Petrobrás e casebres miseráveis por toda a periferia. Embora seja  a cidade da riqueza do açúcar, no tempo passado, e do petróleo, na atualidade, os ecos da escravidão e da desigualdade de renda assombram ainda a população paupérrima de São Francisco do Conde. Mesmo a cidade apresentando a maior renda percapta do país( R$300.000,00 por pessoa) e a prefeitura recebendo royalties mensais de R$10.000.000,00 (dez milhões por mês!) da Petrobrás, a população não desfruta de saneamento básico, poucas ruas são asfaltadas na periferia, o serviço médico é muito precário e a educação sofrível. Há que se pensar na administração …

É comum vermos a população na janela a olhar a vida passar. Carentes, sem muitas perspectivas, parecem todos personagens do poema Cidadezinha Qualquer de Drummond.

 

A Casa da Câmera e Cadeia – até hoje  eu acho graça da ironia da Câmera e da Cadeia estarem juntas – construída no século XVIII, fica na Praça da Independência, a poucos passos do cais. 

O prédio está em bom estado de conservação e mantém a pintura tradicional das construções lusitanas, mas, apesar da importância histórica, não está tombado pelo patrimônio histórico, como quase tudo em SFC.

Aqui e ali, desponta o casario colonial, mas o ponto alto da arquitetura neste  reduto baiano é mesmo a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, construída no século XVI.  Palmeiras imperiais ao passo que anunciam a igreja também a escondem :

 

O barroco vai se revelando aos olhos mais atentos,  já na fachada principal, quando vemos a concha atrás da imagem do Santo Francisco. Se Gioto pintou toda a catedral de Assis e nos deixa embasbacados e boquiabertos, em SFC é a falta de conservação do patrimônio que nos faz sentir arrepios. A Igreja belíssima precisa de reparos urgentes embora sua fachada esteja em bom estado. 

Observe a simetria das formas, o espelhamento: maravilhas da arte .

Não foram poucos os Franciscos desta terra. A Capitania outrora pertenceu a Francisco Pereira Coutinho, o Rusticão,  doada em 05 de abril de 1534 em Évora, Portugal. Na Ponta do Padrão na Barra da Baía – Salvador , o Rusticão fundou a sua vila, conhecida posteriormente como Vila Velha ou Vila do Pereira. Interessante o dado porque nos faz viajar nas nomenclaturas do presente. O Pereira é hoje o nome de um badalado restaurante em Salvador e Vila Velha o nome de um dos mais antigos teatros da capital, importante por ter revelado no show Nós, por exemplo, nomes como Gal Costa, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gilberto Gil e Tom Zé.

Vou voltar a caminhar pelo recôncavo, voltarei a São Francisco do Conde. De lá, trarei mais desta nossa Bahia para a gente.

Foto do blog

Ah, legal este template: toda semana, uma nova foto, tá? Hoje, Paris, por causa do post abaixo. Um critério para as fotos aqui publicadas: todas de minha autoria ou tiradas com minha máquina por algum amigo (quando eu aparecer).

Bem vindos!

Vontade…

…de vender meu carro e ir para a França e a Itália me distrair um pouquinho.

Tomar chocolate em Paris,

 

caminhar pelas margens do Sena, ficar mais uma vez estupefacta ao ver Notre Dame.

Subir na Eiffel de novo, programão de turista, e ver a cidade inteirinha lá de cima. Sentir um frio na barriga devido à subida e a estar em Paris . Comprar Perrier no primeiro mercadinho vagabundo, uvas, damascos e pães e queijos. Gastar menos de 10 euros e, simplesmente, sentar no Jardim das Tulherias para fazer anonimamente entre milhares de pessoas o seu piquenique do dia.

Caminhar então até a Gare de Lion e tomar um trem para Milão. Assim, meio como quem não quer nada. Sentir a velocidade nas gotas de chuva que mal caem na janela do trem bala a 300 km por hora e docemente fazer depois a baldeação nos Alpes.

Ver da janela a neve, os chalés, e pensar quase incrédula que sim, moram pessoas ali.

Chegar a Milão, e pasmar ao ver o Duomo gigantesco. Aquela catedral que mais parece um castelo gigante de areia. E passear despretensiosamente na Vittorio Emanuele

 

e pôr o calcanhar nos culhões do touro

como reza a tradição para voltar mais uma vez.

Passar um dia depois uma hora inteirinha na stazione centrale só vendo o movimento das pessoas que vão e vêm… E então pegar outro trem para Veneza, chegar a Santa Lucia e andar, andar, andar… atravessar o grande canal, subir e descer as infinitas pontes, comer uma pizza e tomar um vinho no primeiro lugarzinho que achar…

…só para recompor as forças. Depois ir ao Vini da Pinto e comer todas as entradinhas antes da bela massa.

Farta, satisfeita, tomar um gelato stracciatella e nocciola.

Sentar no meio da Piazza San Marco,

 estender o mapa no chão e aventar as hipóteses do próximo destino…